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O auge e o declínio da era do abandonware | Tecnoblog

O auge e o declínio da era do abandonware

O auge e o declínio da era do abandonware

Meu vício internético de longa data (em 1995 eu já estava enchendo o saco de estranhos na internet) me tornou uma espécie de pioneiro entre meus amigos. Fui o primeiro da minha turma a descobrir mIRC, ICQ, Napster, 4chan, emuladores e abandonwares.

A descoberta dos abandonwares foi uma das que mais me cativaram. Era 1999, se não me engano, e eu encontrei muito aleatoriamente um site com diversos joguinhos que jogava no IBM 386 do meu pai, como Alley Cat ou Lunar Lander.

O próprio nome da categoria era exótico. Abandonware: programas abandonados. O termo insinuava a ideia de um baú enterrado com vários joguinhos gratuitos deixados para trás, para serem encontrados anos mais tarde. E de fato era assim que eu me sentia ao encontrar aqueles joguinhos que eu não conseguia parar de jogar seis ou sete anos atrás.

GTA 1: de graça, até injeção na testa.

GTA 1: de graça, até injeção na testa.

Eu trouxe, muito animado, a descoberta para os meus amigos da escola. Infelizmente nem todos eram filhos de técnico de informática como eu (a segunda geração de técnicos de informática são sempre, invariavelmente, o tipo que cresceu rodeado de computadores – e por associação, por jogos de computador), e encontrar BurgerTime.exe vagando perdido na internet não era algo tão incrível para eles. Entretanto, não demorou para encontrar na internet um novo grupo de amigos saudosistas que apreciam as velharias digitais tanto quanto eu.

Assim como emuladores, os abandonwares beiravam a margem da legalidade. E havia também as regrinhas não-oficiais, passadas de boca em boca com suposta autoridade. “Jogos com mais de cinco anos de idade são automaticamente abandonware”, diziam alguns sites, e repetiam os fãs. Era tão desorientado como o argumento de que ROMs são legais “se você possuir o cartucho dos jogos, e se você nunca deixá-las no HD por mais de 24 horas”.

Lembro que todo site de ROMs anunciava esse mandamento, como se esse aviso os tornassem incapazes de sofrer as punições legais por infração de direitos autoriais.

Hoje tais considerações soam incrivelmente ingênuas. Até parece que a Nintendo acha bonito que você baixe (ou pior, hospede no seu site!) Super Mario World contanto que tenha ganho o jogo de aniversário 13 anos atrás. Mas lembre-se que vivíamos a era áurea da internet velho-oeste. Não havia um esforço organizado em policiar o que rolava pelos tubos da internet na época.

Obviamente, os tempos mudaram. Hoje sabe-se que na verdade, os autores de software não perdem o direito de defender sua criação após míseros cinco anos. E há um esforço bem maior em tirar do ar sites infratores; enquanto abandonware era praticamente legítimo em 2001, hoje em dia nenhum site sério arriscaria manter uma seção homônima.

Mas há alternativas pra apreciar joguinhos clássicos. Entre os serviços de download digital destaca -se o Good Old Games, especializado em jogos antigos. Os preços são camaradas (variam entre 5 e 10 dólares), a seleção é bastante eclética, e o melhor: não há nenhum tipo de DRM envolvido na negociação.

Dá até vontade de usar o clichê “melhor que isso, impossível!” mas eu estaria mentindo, porque há uma alternativa ainda melhor: algumas empresas decidiram angariar o amor eterno dos fãs de suas franquias clássicas liberando-as para download gratuito. Command and Conquer, sua pseudo-continuação Red Alert, GTA 1, GTA 2… Todos estão disponíveis para download gratuito, basta que a pessoa digite os termos certos no Google.

Eu só espero que a moda pegue, porque algumas empresas precisam aprender com esses exemplos. A Blizzard, por exemplo, não oferece nenhuma forma de adquirir alguns de seus clássicos, como Warcraft II. É praticamente imperdoável. O único jeito é comprar um CD usado (em estado imprevisível de conservação) no eBay ou sites similares.

É uma pena, mas há esperança. Afinal, eu jamais poderia ter predito que C&C um dia seria freeware.