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Jogo de cartas marcadas | Revista Carro

Jogo de cartas marcadas

Jogo de cartas marcadas

Assim que completou 18 anos, Luís* começou a tomar as providências exigidas para tirar a Carteira Nacional de Habilitação. Tinha pressa: ele queria ajudar seu pai, encanador, a dirigir a minivan que carrega os equipamentos necessários para prestar os serviços. É um processo lento, que envolve documentação, curso, exames, aulas práticas. Depois de vencer todas as etapas, Luís foi fazer o exame prático. Bombou uma, duas, três vezes. Foi então que o instrutor da autoescola chamou-o para um papo reto.“Ele disse que por R$ 300 resolveria meu problema em uma semana”, conta. “Aceitei, porque estava desesperado. Pagaria até o dobro, se ele pedisse.” Hoje, Luís dirige normalmente a minivan do pai e se considera um ótimo motorista. Mas não concorda com o que fez: pagar para ter a carta. “É ridículo”, resume.

O fato, no entanto, é que a prática de pagar para ser aprovado no exame prático – e, em alguns casos, até no teórico – tem sido incorporada no processo de habilitação de novos motoristas, ao ponto de dar a impressão de que apenas uma minoria cumpre o ritual formal, sem entrar no esquema corrompido.

Carro Online entrevistou oito jovens, com menos de 25 anos, e constatou que apenas um deles tirou a CNH sem desembolsar propina. “Eles me ofereceram, mas não aceitei”, diz Henrique, explicando que, para ele, era uma questão de honra ser aprovado no exame por méritos próprios. “Eles”, no caso, são o instrutor e o gerente da autoescola. “Depois que fui reprovado pela terceira vez, me pediram R$ 450 para acabar com o sofrimento. Não topei e, na quarta tentativa, passei.” – Publicidade –

Fernanda não teve a mesma paciência. Ao contrário: quando entraram em contato, ela não resistiu à oferta que o dono de uma autoescola na zona norte de São Paulo lhe fez: R$ 1 350 para tirar a carta de moto em 20 dias – sem precisar fazer curso, exames ou sequer frequentar a autoescola. “Eu já sabia dirigir. Saiu mais barato do que passar por todas as aulas e provas”, justifica.

O que Fernanda não sabe é que muitas dessas CNHs são falsas e podem ser apreendidas em qualquer controle policial, na cidade ou na estrada. O policial, ao pesquisar no sistema Prodesp, a empresa de informática do Estado de São Paulo, confere se o condutor é habilitado ou não. E as consequências não são nada agradáveis: o portador de uma CNH falsa pode ser processado pelo crime de falsidade ideológica.

“Já fui várias vezes parado e nunca aconteceu nada”, diz Guilherme, que pagou R$ 500 para tirar sua carteira de habilitação em 2006. Ele conta que teve a clara sensação de que foi induzido a essa solução ilegal. “Na segunda prova prática, o instrutor puxou o breque de mão antes de eu parar e o carro morreu. Daí fui reprovado. Não pude fazer nada, o cara até me tratou mal.” Segundo Guilherme, “foi um esquema para me obrigar a pagar pela carta”.

“Eu também paguei, mesmo assim, tive de fazer o exame prático”, diz Leonardo, que tem a CNH desde 2009. “O instrutor entrou no carro e disse para eu dar umas voltas. Ficamos rodando pelas ruas do local uns 15 minutos. Daí ele falou para eu voltar porque já estava aprovado”. Pelo “servicinho”, Leonardo pagou R$ 900 a um intermediário. “Foi um sujeito que apareceu na autoescola e que eu nunca tinha visto antes”, diz.

A corrupção no Detran não é novidade nem mesmo para o Detran. E envolve uma ampla gama de “profissionais” – instrutores, funcionários de autoescola, funcionários do Detran e despachantes. No ano passado, uma operação batizada de “Contra-mão 2” investigou 4.000 motoristas, em 11 municípios do Rio de Janeiro e na própria capital do Estado, suspeitos de terem comprado a CNH. Dezenas de pessoas foram presas. A Polícia Civil e o Detran do Rio de Janeiro constataram que a rede de corrupção promovia a entrega de, em média, 200 CNHs compradas por dia. – Publicidade –

Em São Paulo, o Detran vem passando por uma mudança de gestão cujos objetivos, entre outros, é combater a corrupção (veja quadro). É uma tarefa árdua, que conta com o apoio da população. “Acho um absurdo, isso não é jeito de habilitar os motoristas. Já não basta o trânsito caótico que temos? Paguei e me arrependo. Preferiria fazer o exame dez vezes”, diz Leonardo. * Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos personagens.

 

COMBATE À CORRUPÇÃO Sob nova gestão desde março de 2011, o Detran de São Paulo vem passando por uma ampla reestruturação com o objetivo não só de melhorar a qualidade dos serviços, mas também de combater a corrupção. Exemplo disso é a criação da e-CNHsp que, implantado na capital em dezembro do ano passado, permite a identificação dos condutores pelo reconhecimento biométrico (impressões digitais) e dos operadores (médicos, psicólogos e profissionais dos Centros de Formação de Condutores) por certifi cação digital. Com isso, é possível identificar todos os envolvidos no processo de emissão do documento.

Também online (www.detran.sp.gov.br.) foi criada a Ouvidoria, canal para receber denúncias, reclamações e sugestões diretamente dos cidadãos, cujo anonimato é garantido. O Detran- SP ressalta que quem presenciar a “venda” de carteiras de habilitação ou de documentos de veículos deve formalizar denúncia junto à Ouvidoria. Quem for flagrado comprando o documento poderá ser enquadrado no crime de corrupção passiva, com pena que pode variar de dois a 12 anos de reclusão e aplicação de multa.

 

R$ 10 milhões é o valor anual, estimado pela polícia civil do Rio de Janeiro, movimentado pela quadrilha investigada na operação “Contra-mão 2”.

 

CNH GRATUITA COMO INCLUSÃO SOCIAL Do lado oposto às denúncias de corrupção, alguns governos estaduais vêm realizando programas que dão acesso à população de baixa  renda à CNH gratuita – tanto para tirar a primeira carta como para trocar de categoria. É o caso da Paraíba, Estado campeão de ocorrências com motoristas não habilitados. Lá, estão sendo contemplados aqueles com renda inferior a 1,5 salário mínimo, desempregados há mais de um ano e egressos e liberados do sistema penitenciário. O governo desse Estado acredita que a carta de motorista possa ser uma porta de entrada ao mercado de trabalho, promovendo a inclusão social. No Espírito Santo, há um programa semelhante e outros Estados também estão elaborando projetos que atendam aos mesmos objetivos. O custo médio para se tirar uma CNH no país é de R$ 700.