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Rivalidade no pódio | Revista Carro

Rivalidade no pódio

Rivalidade no pódio

Hunt em seu McLaren: obsessão pelo título

Rivais são necessários. Eles existem para que um puxe o outro adiante, rumo ao auto-aprimoramento. Na Fórmula 1, quem duvida que as eternas brigas entre Ayrton Senna e Alan Prost, por exemplo, fizeram os dois crescerem profissionalmente? Mas bem antes da dupla Senna-Prost, outro par de ases protagonizou pegas eletrizantes: Niki Lauda x James Hunt. Se não bastassem as manobras suicidas na pista, eles duelavam nos bastidores com palavras ácidas e às vezes cruéis, como espadas bem afiadas. No entanto, ambos sabiam: um não seria o que foi sem o outro.

O aguardado filme Rush – No Limite da Emoção, que entra em cartaz no próximo dia 13, retrata com perfeição essa rivalidade. Pensado em cada detalhe, Rush relembra a temporada de 1976, em que eles brigaram pelo título até a última prova, no Japão. Mas o início mostra os dias em que os jovens pilotos austríaco e inglês se conheceram em 1970, ainda nas pistas da Fórmula 2. Foi ódio à primeira vista. Hunt, um boêmio e mulherengo inveterado, de cara percebe que seu reinado estava ameaçado por alguém completamente diferente: um oponente centrado, calculista e que desafiou o pai para viver o desejo de ser piloto. E dos bons.

Niki Lauda (interpretado por Daniel Brühl) estava na Fórmula 2 de passagem. Queria mesmo era chegar rápido à F1. Em 1973, compra uma vaga na BRM – o filme ignora suas passagens na March, em 1971 e 1972 –, onde já demonstra sua incrível capacidade para acertar carros e negociar bons contratos com os patrões. Nesse mesmo ano, James Hunt (vivido por Chris Hemsworth) vai ao encalço do inimigo e inicia sua trajetória na Hesketh, a escuderia que ascendera à F1 juntamente com o inglês. A briga estava apenas começando.

Vaga na McLaren

Enquanto Lauda já era campeão mundial e se consolidava na Ferrari, Hunt amargava a possibilidade de não correr na temporada de 1976. Com a Hesketh atolada em dívidas, Hunt ficou a pé. Coube ao brasileiro Emerson Fittipaldi, porém, ajudá-lo indiretamente. Ao tentar a sorte em uma equipe própria, a Copersucar, Emerson deixou seu lugar vago na McLaren. Hunt, então, reúne-se com os dirigentes da equipe e, literalmente, implora por sua contratação – mesmo ouvindo que não era um piloto de temperamento confiável. Despirocado sim, mas também dono de fortes argumentos, Hunt foi contratado.

Talvez nunca a F1 tenha visto uma ambiguidade tão grande entre talento em estado bruto e perfeccionismo. Playboy x disciplinado. Assim eram Hunt e Lauda. Mesmo pilotando um carro tão competitivo quanto a Ferrari, Hunt viu o rival disparar na liderança do campeonato de 1976. Até que houve o divisor de águas da temporada e, não por coincidência, o episódio mais marcante do filme.

1º de agosto: GP de Alemanha, em Nürburgring. Lauda convoca uma reunião com os pilotos para pedir o cancelamento da corrida, alegando falta de segurança do circuito de 22.835 m. A discussão é tensa e ríspida. Hunt defende ferozmente a realização da prova que, no final, foi a decisão da maioria. O austríaco parecia estar prevendo o pior. Na segunda volta, sua Ferrari pegou fogo depois de bater forte no muro e Lauda ficou preso nas ferragens do carro entre as chamas, numa temperatura de 400ºC.

Recuperação dolorosa

A partir daí, o longa ganha uma forte carga dramática. Desenganado, Lauda chega a receber a extrema-unção em seu leito no hospital, sempre acompanhado pela mulher Marlene. Mas o milagre acontece. Ele desperta do coma e inicia um doloroso – e corajoso — processo de recuperação, na qual a limpeza dos pulmões é a sequência mais chocante. Enquanto se recompõe, Lauda vê Hunt ganhando pontos e diminuindo sua diferença. Para espanto geral, o líder do campeonato volta a correr na Itália, depois de apenas 42 dias da tragédia da Alemanha.

Na coletiva de imprensa antes do GP de Monza, uma pergunta infeliz dirigida a Lauda despertou a ira de Hunt: “Você não teme pelo seu casamento por causa da sua aparência atual?”, questionou o repórter, em alusão ao rosto desfigurado pelas queimaduras do piloto. Irritado, Lauda encerrou a entrevista. Hunt, então, chamou o jornalista boquirroto em um canto e o esmurrou sem dó, cobrindo-o de sangue. “Agora, vá perguntar para a sua mulher o que ela acha da sua aparência!”. Rivais sim, mas, antes de tudo, solidários pela mesma causa: de pôr a vida em risco a cada prova.

Não houve combustível melhor do que Hunt para o restabelecimento de Lauda. Os dois chegaram à última prova, no Japão, com chances de ser campeão. Debaixo de uma tempestade inclemente, Lauda deu duas voltas e abandonou. As feridas ainda estavam muito recentes para desafiar a morte. Niki acompanha o resto da prova nos boxes, ao lado da esposa. O curioso é que o filme transmite ao espectador uma sensação dúbia: a de que o austríaco espera por um mau resultado de Hunt para ser bicampeão e, por outro lado, expressa uma torcida velada para que o inglês ganhe o título – o que acabou acontecendo com o terceiro lugar obtido por Hunt.

A temporada mal acaba e Niki Lauda já se mostra concentrado para 1977. Nada a ver com Hunt, que não abre mão de jatinhos, garotas e festas. Preste atenção no diálogo – enfim amistoso — entre eles no final de Rush. É de arrepiar. Ao deixar o orgulho de lado, o ferrarista abre o coração: “Ver você vencendo durante a minha recuperação, me colocou de volta no carro. Você foi o responsável por me fazer voltar”. E ainda houve tempo para conselhos. “James, você deve se preparar, focar mais. Quando entramos no carro, temos 20% de chances de morrer…”, ao que Hunt interrompe. “Pare de sempre falar de porcentagem em nossas conversas. Desse jeito, você mata o esporte”.

O que se vê a partir da bronca é um Lauda pensativo como quem diz: “Ele tem razão”. Difícil saber até onde vai a realidade e onde começa a ficção desse encontro. Porém, é muito mais emocionante crer que ele existiu e foi retratado com fidelidade. Os dois se despedem seguindo caminho opostos. Hunt não tinha mais compromisso com a F1: já era campeão. Lauda, por sua vez, continuou sua busca obsessiva por vitórias. No final, fica uma certeza contraditória de que, até aquele momento, os dois precisavam estar juntos. Mas devidamente separados.

Rush certamente fará parte da cinemateca de longas espetaculares que falam da Fórmula 1, ao lado de Grand Prix (1966), Um Momento, Uma Vida (1977) e Senna (2010).

Quer uma palhinha do filme antes de ir ao cinema? Veja, então, os trailers abaixo.

 

Rivais em números

Niki Lauda

Títulos: 1975, 1977 e 1983

GPs disputados: 171

Vitórias: 25

Poles positions: 24

 

James Hunt

Títulos: 1976

GPs disputados: 92

Vitórias: 10

Poles positions: 14