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“Quino registrou pensamentos atemporais sobre a América Latina” – Planeta

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Mafalda e Quino: artista produziu 1.928 tiras com a personagem entre 1964 e 1973. Crédito: Reprodução via Facebook Mafalda Oficial

A importância de Quino ultrapassa os limites dos quadrinhos. Através da sua personagem Mafalda, ele registrou pensamentos atemporais sobre a realidade da América Latina, com forte teor político e consciência social. Quino colocou o quadrinho latino-americano no mundo.

É dessa forma que o professor Waldomiro Vergueiro, coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, se refere ao cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, criador da Mafalda – a garotinha pensadora e crítica –, que morreu, aos 88 anos, na cidade de Mendoza, na Argentina, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

“É difícil listar quem não se inspirou no Quino”, afirma Vergueiro. “No Brasil, Laerte, Adão Iturrusgarai, na própria Argentina o Caloi, a Maitena Burundarena, todos os mais jovens claramente se inspiraram nele e em sua obra.” Para o professor, a maior importância de Quino foi dar voz aos pensamentos e questões latino-americanas. “A forma como ele pensava as questões sociais e políticas era intrinsecamente latina. Um europeu ou um norte-americano não pensariam assim. Só um latino poderia ter a visão que ele tinha.”

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Vergueiro ressalta a atemporalidade das situações que Mafalda apresentava. “Ele nunca criticava uma questão pontual, específica. Era sempre sobre questões amplas, duradouras. O que ele fez há 30 anos continua válido hoje.” O professor cita a ampla utilização das tiras e quadrinhos da Mafalda na educação, deixando claro que elas eram, principalmente, uma obra política.

“Mafalda sempre foi um quadrinho que podia ser lido tanto pelas crianças quanto pelos adultos, e os dois o entendiam. Nele você tem todos os esteriótipos da sociedade latino-americana da época, o empresário, o ingênuo, a dona de casa burguesa, e principalmente o desejo de liberdade de toda a América Latina.”

Esse teor político não vinha apenas dos personagens, mas da progressão do quadrinho de acordo com a passagem do tempo e com as mudanças na política e na sociedade latino-americanas, segundo Vergueiro. “Há uma evolução da Mafalda, que representava um espírito mais liberal. Quando ela se esgota, nasce uma personagem mais jovem, a Libertad, que claramente tem ideias mais de esquerda.”

Vergueiro destaca que a importância de Quino não se restringe ao sucesso de Mafalda. O quadrinista argentino foi também um dos mais importantes cartunistas da atualidade. “O papel dos políticos, a divisão de classes, a política externa, a desigualdade social, tudo isso era objeto de crítica dele”, conta o professor. “A própria Mafalda criticava muito o papel da mulher na sociedade, principalmente por meio da mãe. Foi uma das primeiras personagens feministas do continente, e isso influenciou toda uma geração. É muito comum dizer que a Burundarena é a ‘Mafalda crescida’.”

Para Vergueiro, o estímulo a uma visão crítica e aguda da realidade, questionando constantemente as situações que permeiam o cotidiano, é o grande legado de Quino. “O seu cartum era sempre sobre o homem comum se deparando com as situações da realidade”, relembra.

“Quino foi talvez o último grande cartunista latino. Eu me recuso a terminar de ler a Mafalda, porque, quando não tiver mais ela, o que é que eu vou fazer?”

Charge de Quino – Reprodução

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