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O episódio do canadense do Camboja | Preciso Viajar

O episódio do canadense do Camboja

O episódio do canadense do Camboja

Hoje vou contar a história do canadense que conheci no Camboja, o B. Minhas amigas costumam falar que eu tenho um ímã para malucos e eu sempre achei que as malucas eram elas, mas essa história prova que talvez elas estejam certas.

Estava andando no meio da Pub Street, a rua dos barzinhos de Siem Reap, quando um cara me abordou no meio da rua perguntando se eu sabia onde ficava o restaurante mexicano para ele tomar café da manhã. Eu disse que não e aí ele me convidou para procurar o restaurante com ele argumentando que precisava muito conversar com alguém.

Como eu não tinha nada melhor para fazer, eu aceitei. Tipo, violei a regra número um dos pais (e dos curitibanos) que é: não fale com estranhos. Bom, achamos o tal restaurante mexicano, mas como a cerveja estava um pouco cara por lá (exorbitantes U$0,75) resolvemos encontrar outro local.

Sim, era café da manhã, mas a cerveja era tão barata no Camboja, que eu iniciava os trabalhos cedo. Não me julgue, pois se um dia você enfrentar aquele maravilhoso calor úmido na casa dos 40 graus, vai entender porque uma cerveja é necessária mesmo que às 10 da manhã.

Tomamos café, começamos a beber conversar e aí a garçonete veio nos perguntar se queríamos fazer um curso de culinária. Eu me interessei na hora, ele não, mas como custava U$10, fizemos a inscrição para o dia seguinte.

Algumas cervejas depois, resolvemos que já era hora de pedir o almoço. Sei que deve ter gente horrorizada achando que tudo isso é muito perigoso e são situações assim que fazem você acordar numa banheira sem rim (desculpa se você acredita nessa história, mas é lenda urbana), então vou colocar minha defesa aqui.

“Não é comum fazer julgamento ou ter preconceitos. A aquariana costuma aceitar as pessoas como elas são sem a intenção de querer mudá-las. O fato de adorar novidades e mudanças não quer dizer que tenha que mudar as pessoas. É muito mais fácil ela querer mudar o mundo ou o universo. O que pode parecer chocante e escandaloso para muitas pessoas, para ela pode parecer simplesmente exótico”. (descrição do signo da mulher aquariana). Entrando na onda do Roberto Carlos, essa mulher sou eu.

Eu me comovo com as pessoas. O cara parecia estar realmente triste e querendo conversar e eu sei o quanto é difícil não ter ninguém para desabafar e a vantagem de desabafar com um estranho é que a chance de você nunca mais ver a pessoa é alta, então no fundo, ninguém tem nada a perder.

E eu adoro falar inglês. Confesso que adoro quando os gringos falam que não dá para adivinhar que sou brasileira porque meu sotaque não é brasileiro. Sim, meu ego fica nas alturas.

Ele estava viajando com um amigo, mas o amigo preferia as baladas (prostituição) do que o turismo e dormia o dia inteiro e aí durante o dia ele não tinha cia para fazer nenhum passeio. Pensa no nível de desespero da pessoa para abordar uma estranha no meio da rua e pedir para conversar!

E conversamos muito mesmo sobre os mais variados assuntos, até que ele resolveu ir ao banheiro. Confesso que nessa hora, a história da banheira e do rim até veio na minha cabeça e eu pensei seriamente em levantar e ir embora, mas não sei por qual motivo, eu não fiz isso. Quando ele voltou, ele mesmo comentou que achou que eu já teria ido embora e ainda completou dizendo que se ele fosse eu, não teria aceitado o convite que ele fez.

Nesse meio tempo até um gato preto apareceu. E ele era espertinho. Achou a água.

Me bateu aquele medo básico, mas uma parte de mim ainda acredita na bondade das pessoas. E felizmente, eu estava certa. Tudo que o cara queria era uma cia, alguém para conversar, passar algumas horas do dia. Como estava anoitecendo, pedi para a garçonete fechar a conta. Ele fez questão de pagar tudo e acreditem se puderem, mas a conta com tudo que comemos e bebemos o dia inteiro deu uns U$25.

Nesse momento dei um tempo na cerveja e pedi o suco de banana mais horrível que bebi na minha vida. Com água. Simplesmente nojento!

Eu falei que queria comer uma panqueca de banana (momento gordice total) e ele ainda me acompanhou até a barraquinha. Achei que o cara era meio louco e ía me seguir, mas quando me despedi naquele esquema “sou legal, mas não estou te dando mole”, ele simplesmente falou que aquele dia tinha feito diferença na vida dele. Fiquei feliz em poder ter contribuído de alguma forma para alegrar o dia de alguém.

No dia seguinte, o recepcionista do hostel me entregou um envelope e uma flor. No envelope tinha um bilhetinho e os contatos dele. No bilhete, ele escreveu que eu era mais que bem vinda no Canadá.

E cheguei à conclusão que existem homens decentes no mundo. O B. do Canadá é um deles. Uma pena que o Canadá seja tão frio e ele seja um pouco louco, afinal eu atraio mesmo malucos, ao que tudo indica.