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Motor discreto, mas eficiente | Revista Carro

Motor discreto, mas eficiente

Motor discreto, mas eficiente

Há poucas décadas, um motor capaz de oferecer economia de combustível, bom torque e potência, manutenção com custo adequado, alta durabilidade, além de funcionamento suave e silencioso, era… um sonho. Cobrir uma amplitude tão vasta de exigências era impossível em função da tecnologia limitada. Nos último anos, no entanto, a evolução acelerada da engenharia tem exibido resultados impressionantes. E o mais recente exemplo desse avanço no Brasil acaba de ser exibido pela Volkswagen no Fox BlueMotion, equipado com o novo motor tricilíndrico 1.0 e membro da família EA-211. 

A linha BlueMotion, desenvolvida inicialmente na Europa, visa oferecer automóveis com baixíssimo consumo de combustível e utiliza diversos recursos para atingir essa meta. No caso do novo Fox BlueMotion, que começa a ser vendido a partir deste mês, o maior investimento da Volkswagen foi no sistema motriz.

A primeira medida para tornar o EA-211 em um eficiente 1.0 foi desenvolvê-lo com somente três cilindros, em vez do clássico leiaute com 4 cilindros, encontrado na grande maioria dos veículos populares no Brasil. A justificativa, de acordo com Roger Guilherme, gerente de powertrain da Volkswagen, é que um cilindro a menos no motor gera diversos benefícios, começando pela diminuição de peças móveis — o que, consequentemente, reduz parte da perda de energia por atrito a cada rotação do motor.

Reduzir um motor de quatro para três cilindros e manter o mesmo deslocamento (de 1 litro ou 999 cm³ nesse caso) significa que cada cilindro ficará consideravelmente maior — passa de 250 cm³ para 333 cm³.  “Além de gerar maior fluxo de admissão na hora de encher os cilindros, os pistões com diâmetro maior também possibilitam o uso de válvulas maiores, como foi adotado. Isso faz com que o motor inspire e expire melhor a mistura ar-combustível”, explica Guilherme. Ainda de acordo com o engenheiro, o maior curso dos pistões (ou seja, o maior tamanho na sua movimentação de subida e descida dentro do cilindro) do EA-211 auxilia na produção de torque em baixas rotações — algo crítico em motores aspirados e com deslocamento reduzido.

Na prática, toda a tecnologia embarcada no EA-211 (veja quadro na pág. 38) lhe permite gerar 75 cv a 6 250 rpm e 9,7 mkgf de torque  entre 3 000 rpm  e 3 800 com gasolina e 82 cv e 10,4 mkgf de torque nas mesmas rotações, quando abastecido com etanol. Ele tira do Renault Clio (80 cv e 10,5 mkgf, com etanol) o posto de motor 1.0 mais potente de nosso mercado. Paralelamente, mesmo sem tantas inovações tecnológicas, o propulsor 3 cilindros de Kia Picanto e Hyundai HB20 tem rendimento próximo: 80 cv e 10 mkgf de torque, quando utilizam o combustível de origem vegetal.

Em relação ao consumo de combustível, o avanço é notável. O Fox BlueMotion registrou médias de 9,9 km/l de etanol em ciclo urbano e 14,5 km/l em rodovias, já o Fox 1.0 4 cilindros, em nossa última avaliação, obteve médias de 6,8 km/l e 11,1 km/l, respectivamente. Todavia, um (importante) fator precisa ser levado em conta: a configuração com motor 1.0 convencional utilizada para a aferição do consumo de combustível era 4 portas e munida de todos os itens opcionais disponíveis pela marca. A unidade BlueMotion cedida para estes testes, no entanto, tinha carroceria 2 portas e o único opcional equipado era o sistema de som com sensor de estacionamento. A ausência de itens como ar-condicionado, acionamentos eletrônicos e as portas adicionais o tornam consideravelmente mais leve, melhorando o consumo de combustível e desempenho na pista de testes.

Na hora de trafegar, o Fox BlueMotion surpreendeu. O modelo não só acelerou com muito mais vigor em relação à versão 1.0 comum (fez de 0 a 100 km/h em 14s4, contra 17s1), como também melhorou os números de retomadas. Ele precisou de 23s7 para ir de 60 km/h a 120 km/h em 4ª marcha, (27s2 na vesão 1.0 normal). No trânsito, esse ganho fica claro no comportamento mais “esperto”, uma das grandes deficiências do Fox atual em suas opções com motor 1.0 TEC de 76 cv e 10,6 mkgf de torque. A única ressalva vai para o funcionamento do motor em marcha lenta, que produz uma discreta, porém presente vibração.  Nada, no entanto, que cause incômodo.

Fora essa situação, o EA-211 é suave e muito silencioso, até mesmo quando atinge o limite de rotações nas 6.800 rpm. Em decorrência desse funcionamento estável, não é difícil você se encontrar mantendo as rotações do motor em nível muito mais elevado do que está acostumado: ele não fica “esgoelando”, como se diz na gíria, com frequência. O que é muito bom, em especial num 1.0.   

A VW diz que no momento seu motor tricilíndrico é para uso exclusivo do Fox BlueMotion, e não comenta sobre a possibilidade de expandí-lo para outros modelos. Porém, com um componente tão avançado em mãos, não seria surpresa vê-lo em  novos modelos em breve.

Além da motorização, o Fox BlueMotion recebeu um novo pacote de melhorias para a carroceria desenvolvido com o obejtivo de diminuir seu coeficiente aerodinâmico (cx) e a área frontal. Quanto menor ela for, menos contato o veículo tem com o ar, sendo que um Cx inferior significa que o automóvel tem a capacidade de “perfurar” o ar com menor resistência. Uma nova grade frontal e aerofólio traseiro reduziram o cx do hatch de 0,353 para 0,330, enquanto os pneus 195/55 R15 foram substituídos por componentes na medida 175/70 R14 (de baixa resistência ao rolamento), reduzindo a área frontal do modelo de 2,170 m² para 2,160 m².

As modificações para diminuir o consumo de combustível ainda incluem novo acerto da suspensão para trabalhar com a calibragem mais alta dos pneus (passaram de 29 psi na dianteira e 28 psi na traseira para 36 psi e 34 psi, respectivamente) e relação de marchas alongadas do câmbio MQ-200. Fora isso, o Fox BlueMotion recebeu novo revestimento interno e o I-System, que indica para o motorista os momentos ideais para trocar as marchas. Direção elétrica, freios ABS e airbag duplo são itens de série. O melhor é que custando “por volta” de R$ 32 500 (a VW não forneceu o valor exato), ele é somente cerca de R$ 700 mais caro que a versão comum.

Média final: 7,0

A busca pelo melhor aproveitamento do combustível tem gerado ótimos resultados, e o motor EA-211 é um bom exemplo. Ele não só tornou o Fox mais econômico, como também o deixou mais gostoso de dirigir que o 1.0 “comum”. — Márcio Murta